As mulheres representam aproximadamente 55% dos produtores rurais atendidos anualmente pela Prefeitura de Vitória da Conquista, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural (SMDR). São cerca de 2.700 produtoras beneficiadas por projetos de incentivo à produção, assistência técnica e ações de fortalecimento da agricultura familiar. No Programa Garantia-Safra, a participação feminina é ainda maior, chegando a 60%.
Os números mostram a importância das mulheres para o desenvolvimento da zona rural do município. Além do trabalho na agricultura, elas atuam na educação, na saúde, no comércio e em outras atividades que contribuem para a geração de renda e o desenvolvimento das comunidades. São histórias de trabalho, superação e busca por independência, que ganham destaque neste 15 de outubro, Dia Internacional da Mulher Rural.
Uma dessas histórias é a da engenheira agrônoma Naiara Oliveira Souza de Jesus, de 38 anos, que começou a trabalhar ainda criança na colheita de café e hoje atua na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural. Assim como ela, outras mulheres do campo têm conquistado espaço por meio dos estudos, do empreendedorismo e do serviço à comunidade.
Da colheita de café à Engenharia Agronômica
Natural de Vitória da Conquista, Naiara foi morar no povoado de Cafezal, na Barra do Choça, aos dois anos de idade, após o falecimento do pai. Filha de produtores rurais, começou a trabalhar ainda criança, como catadora de café, para ajudar a família.
Em 2008, aos 20 anos, foi aprovada no concurso público da Prefeitura e passou a atuar na Secretaria de Finanças. Casou-se com Gilmar, teve a primeira filha, Maria Eduarda, e, em 2013, aos 25 anos, realizou o sonho de cursar Engenharia Agronômica na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Durante a graduação, nasceram Ana Laura e Heitor. Todos os dias, Naiara conciliava o deslocamento da zona rural até a sede, as aulas, o trabalho e os cuidados com a família.
Perto de concluir o curso, foi transferida para a então Secretaria de Agricultura, hoje Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural (SMDR). “Foi um divisor de águas para minha profissão, porque até então eu não imaginava que conseguiria trabalhar na área. Eu achava que estava fazendo um curso, mas que era um sonho bem distante. Tive apoio da prefeitura para conseguir terminar o curso. Hoje, atuar como engenheira agrônoma é um sonho realizado para mim. É uma área que eu gosto bastante, acho muito importante e é também a área em que fui criada. Durante a minha infância, eu trabalhei no campo”, conta Naiara.
Além do trabalho na SMDR, ela empreende no povoado onde vive até hoje. Aprendeu o ofício na Secretaria e instalou, na própria propriedade, um viveiro para produção e venda de mudas de umbu gigante.
No povoado de Itapirema, a estudante de Pedagogia Janna Vianna também busca construir seu futuro profissional sem deixar suas raízes no campo. Mãe de dois filhos, ela divide o tempo entre a família, os estudos e as atividades da casa.
Como estagiária na Escola Municipal Raul Pompéia, Janna conheceu de perto a realidade de uma escola do campo.
“Apesar de sempre ter morado na zona rural, toda a minha trajetória escolar aconteceu na zona urbana. Por isso, vivenciar a realidade de uma escola do campo ampliou meu olhar sobre a educação. Ver o compromisso dos profissionais com a aprendizagem das crianças fortaleceu em mim o desejo de continuar nessa área”, relata.
Para Janna, a formação universitária representa a possibilidade de conquistar independência e também de incentivar outras mulheres a estudar.
“Como mãe, também penso no exemplo que estou construindo para meus filhos. Quero que eles cresçam compreendendo que estudar vale a pena e que os sonhos exigem esforço. Acredito que minha caminhada também pode inspirar outras mulheres que precisam dividir seu tempo entre a família, o trabalho, a casa e os estudos”.
Também em Itapirema, a designer de sobrancelhas Milka Gomes encontrou no empreendedorismo uma oportunidade de gerar renda e construir sua independência financeira.
Mas manter um negócio na zona rural apresenta desafios. Entre eles estão as dificuldades para receber mercadorias, a necessidade de viajar para buscar produtos, a menor visibilidade dos serviços em comparação com os estabelecimentos da cidade e a organização das finanças.
Para Milka, ampliar as oportunidades de capacitação, facilitar o acesso ao crédito e incentivar as vendas pela internet são medidas importantes para fortalecer os negócios liderados por mulheres. “Assim, as mulheres podem desenvolver os seus negócios, conquistar sua própria renda e ter mais independência”, afirmou.
Cuidado com a saúde das mulheres do campo
Quem conhece de perto a rotina das mulheres de Itapirema é Núbia Santos, agente de saúde da comunidade. É ela quem bate à porta, escuta e acompanha as famílias, e por isso enxerga o que está por trás da jornada de cada uma. “As mulheres da zona rural têm várias jornadas de trabalho: em casa, no cuidado com os filhos, na lavoura, ou se deslocando para a cidade para trabalhar em casa de família. Muitas trabalham para ajudar os maridos e não para si”, observa.
É nesse acompanhamento de perto que o trabalho dela faz diferença. “Com o olhar atento das agentes de saúde, conseguimos identificar casos de ansiedade que antes não eram detectados na zona rural. A sobrecarga de trabalho pesa e a gente procura orientar essas mulheres a cuidarem também de si”, explica Núbia.
Para a agente de saúde, o acesso aos serviços de saúde e às políticas públicas fortalece a autoestima: “as consultas, as orientações e os programas de apoio contribuem muito para a autoestima das mulheres, tornam elas mais independentes e garantem melhores condições de vida”.
Prefeitura desenvolve ações de apoio às mulheres
Para ampliar as oportunidades de geração de renda e fortalecer a autonomia feminina, a Prefeitura desenvolve ações por meio de diferentes secretarias.
A Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres (SMPM) oferece orientação, formação e assessoria para quem deseja iniciar ou ampliar um negócio. Entre as iniciativas estão o programaMulheres que Conquistame cursos de qualificação profissional nas áreas de gastronomia, beleza e outros segmentos.
A Secretaria também realiza palestras, rodas de conversa e atividades educativas, como oPapo Ativo, que aborda temas relacionados aos direitos das mulheres, igualdade, prevenção da violência e autoestima.
Por meio do Centro de Referência Albertina Vasconcelos (Crav), são oferecidos acolhimento e apoio às mulheres em situação de violência.
Somente em 2026, a SMPM já recebeu 27 mulheres de comunidades rurais, sendo cinco de Lagoa das Flores, quatro de Barrocas, três de São Sebastião, três de Campinhos, duas de Bate-Pé, duas de Mamão, duas de Simão, duas de Pradoso, duas de Santa Mônica, uma de Santa Marta e uma do Assentamento União e Força.
Incentivo à produção e acesso ao crédito
Na área rural, a Prefeitura mantém projetos como Citrus do Futuro, Umbu Gigante, Programa de Melhoramento Genético em Bovinos e ações de incentivo à meliponicultura, atividade de criação de abelhas sem ferrão.
A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural também auxilia produtoras e produtores na inscrição no Garantia-Safra e na regularização de documentos, como o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), o Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR) e a declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR).
Outra iniciativa é a parceria com o Banco do Nordeste, que facilita o acesso de moradores das comunidades rurais a serviços bancários e linhas de crédito.
De acordo com o secretário municipal de Desenvolvimento Rural, Breno Farias, os encontros realizados nas comunidades reúnem entre 20 e 40 produtores. Enquanto o banco apresenta as opções de financiamento, a Secretaria auxilia na regularização dos documentos necessários.
“Nessa parceria, a gente leva o banco até as comunidades, porque eles têm uma dificuldade maior de ir à agência. A gente reúne ali entre 20 e 40 produtores, o banco apresenta os serviços que tem para cada perfil, e nós, da secretaria, regularizamos a documentação. O intuito disso é fazer o campo gerar mais. Nos últimos 12 meses, a gente conseguiu viabilizar um empréstimo em torno de R$ 3 milhões para investir na compra de bezerros, caprinos, ovinos, suínos e sementes, gerando riqueza no campo a baixo custo. Mais da metade dos contemplados foram mulheres. Então nós trabalhamos em diversas frentes, e em todas elas a mulher ocupa uma posição de destaque”, afirmou o secretário.
Participação feminina no campo
A presença das mulheres na produção rural também se destaca no cenário nacional. Segundo dados da Embrapa, cerca de 1,7 milhão de propriedades rurais são gerenciadas por mulheres no Brasil, sendo pelo menos 57% delas localizadas no Nordeste.
O Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que a Bahia tem o segundo maior número de estabelecimentos rurais dirigidos por mulheres no país, com mais de 194 mil.
Reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Dia Internacional da Mulher Rural, celebrado em 15 de outubro, chama a atenção para a contribuição feminina na produção de alimentos, no desenvolvimento das comunidades e na redução da pobreza.
Em Vitória da Conquista, histórias como as de Naiara, Janna, Milka e Núbia mostram que a participação das mulheres vai muito além da produção agrícola. Elas também estão presentes na educação, na saúde e no empreendedorismo, contribuindo para o desenvolvimento das comunidades onde vivem.
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