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De uma palavra rara nasce uma travessia atlântica: Nelson Cerqueira interpreta “A caturna”, de Taurino Araújo

(FOTO) Tratado crítico aproxima Portugal, Bahia, memória, corpo e história da língua ao examinar como uma palavra quase esquecida se transforma em centro de uma arquitetura poética de alcance universal em A caturna de Taurino Araújo

20/08/2026 às 22h04 Atualizada em 21/08/2026 às 05h32
Por: Galego Noticias
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(FOTO) Tratado crítico aproxima Portugal, Bahia, memória, corpo e história da língua ao examinar como uma palavra quase esquecida se transforma em centro de uma arquitetura poética de alcance universal em A caturna de Taurino Araújo
(FOTO) Tratado crítico aproxima Portugal, Bahia, memória, corpo e história da língua ao examinar como uma palavra quase esquecida se transforma em centro de uma arquitetura poética de alcance universal em A caturna de Taurino Araújo

Uma palavra antiga, pouco circulante e ligada originalmente a uma peça usada nos pés, A caturna é o ponto de partida para uma das leituras críticas mais extensas já dedicadas a um único poema de Taurino Araújo.
Em A caturna, de Taurino Araújo: um tratado crítico, Nelson Cerqueira acompanha durante 48 páginas o percurso de uma imagem que começa no chão e termina alcançando língua, identidade, memória, história e permanência.


Cerqueira chega a esse estudo respaldado por uma trajetória intelectual de grande amplitude. Doutor em Literatura Comparada pela Indiana University Bloomington, membro da Academia de Letras da Bahia, romancista, ensaísta, poeta, jornalista e crítico literário, construiu ao longo de décadas uma obra marcada pelo diálogo entre tradições brasileiras e internacionais. Sua experiência como leitor de autores como Kafka, Agostinho Neto, Faulkner, Graciliano Ramos e Jorge Amado, aliada à prática da ficção e do ensaio, lhe confere uma rara capacidade de combinar erudição, sensibilidade literária e clareza de interpretação. Em A caturna, esse repertório não pesa sobre o poema: serve para iluminá-lo.

 


Nelson Cerqueira e seu tratado crítico: uma produção  profunda e extraordinária: orgulho para a Bahia, o Brasil e o mundo.


Para o crítico, a caturna não funciona como simples ornamento verbal. Ela se transforma numa espécie de mecanismo central do poema: da caturna nasce o solado; do solado, o passo; do passo, a pegada; da pegada, o rastro; e desse rastro, a memória. 
A operação interessa particularmente porque a Língua Portuguesa deixa de aparecer como patrimônio imóvel. Taurino não a contempla de longe: calça-a. A língua toca o chão, sofre desgaste, atravessa terrenos e recebe marcas. O idioma permanece vivo não porque seja preservado intacto, mas porque continua sendo usado e transformado por aqueles que o recebem. 
É também por isso que a geografia ocupa papel decisivo no tratado. A Serra do Caramulo e Alcofra, em Portugal, aparecem em diálogo com o Recôncavo e a Bahia. A travessia não estabelece uma relação simples entre origem e periferia. Na leitura de Cerqueira, a voz brasileira recebe a tradição portuguesa, mas a devolve modificada por outra história e outro ritmo. A própria caturna, ao chegar ao Brasil, “samba”. 
O diálogo com a tradição literária aparece de forma especialmente clara na presença de Olavo Bilac. A “Última Flor do Lácio”, evocada no poema de Taurino, deixa de permanecer apenas flor, ouro, tuba e lira. Em A caturna, aquela língua celebrada por Bilac é materializada: ganha sola, peso, desgaste e caminho. Cerqueira interpreta esse gesto não como ruptura com Bilac, mas como transformação e prolongamento de uma herança anterior. 
O tratado, porém, não se fecha na tradição lusófona. Nelson Cerqueira abre ao leitor um vasto horizonte bibliográfico e comparativo. Paul Ricoeur, George Lakoff e Mark Johnson aparecem no campo da metáfora; Gérard Genette e Julia Kristeva, na intertextualidade; Rudyard Kipling e Sujata Bhatt, como referências comparativas para marcha, calçado, corpo e língua materna. O crítico não apresenta esses autores como origem da poética de Taurino, mas como interlocutores capazes de ampliar problemas que o próprio poema já produz. 
Essa distinção é importante. Cerqueira afirma expressamente que a bibliografia não deve funcionar como genealogia obrigatória do poema. O movimento é inverso: primeiro vem A caturna; depois, percebe-se que sua organização toca questões antigas e contemporâneas da filosofia, da antropologia, da linguística e da literatura. As referências ampliam o campo da leitura, mas o poema permanece no centro da investigação. 
É nessa perspectiva que uma imagem regional adquire projeção maior. Cerqueira sustenta que A caturna reúne numa mesma construção aquilo que muitas vezes aparece separado na tradição literária: invenção lexical, consciência histórica, filosofia da linguagem, geografia transatlântica, corpo, memória e desejo de permanência. 
A dimensão autobiográfica também é decisiva. O caminho não representa apenas deslocamento espacial. Passa a significar formação, trabalho, magistério, desgaste e desejo de sobrevivência da obra. No início, o poeta calça a língua. No final, ocorre uma inversão: a caturna continua falando quando o corpo já não caminha. A língua, então, deixa de ser apenas instrumento do poeta e se converte em veículo de sua permanência. 
Nelson Cerqueira também preserva distância crítica. Reconhece que os 96 versos não mantêm a mesma intensidade, identifica passagens de registro mais retórico e observa zonas de maior resistência sintática. Esse exame das irregularidades torna ainda mais significativa a conclusão a que chega: a força do poema estaria menos numa uniformidade absoluta do que na capacidade de sustentar uma imagem central por sucessivas camadas de sentido. 
É depois desse percurso que o tratado alcança suas formulações mais altas. Taurino Araújo aparece como alguém que recebe, conduz e transforma a tradição da Língua Portuguesa, deixando nela aquilo que Cerqueira chama de “cicatriz autoral” e projetando “a potência de uma voz inconfundível”. Em outro momento, o crítico o define como “utente, intérprete, renovador e monumento vivo da Língua Portuguesa”. 
Na conclusão, Portugal e Bahia continuam presentes, mas já não constituem os limites do poema. Para Cerqueira, a caminhada de A caturna passa a representar uma relação mais ampla entre ser humano, linguagem, memória, mortalidade e transmissão cultural. A experiência individual alcança uma dimensão antropológica e civilizatória. 
É nesse ponto que Nelson Cerqueira formula a conclusão mais ousada de seu tratado: diante da convergência entre criação poética e pensamento, as designações usuais de “poeta” e “pensador”, tomadas isoladamente, já não bastariam para dimensionar Taurino Araújo. 
Uma palavra rara sai, assim, do vocabulário antigo, atravessa o Atlântico e volta a caminhar.
E, na leitura de Nelson Cerqueira, é justamente porque caminha que permanece.

 

Clique aqui para ver o documento "A CATURNA, DE TAURINO ARAÚJO, UM TRATADO CRÍTICO,  por NELSON CERQUEIRA Ph.D.pdf"

 

 

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