
O escritor baiano Taurino Araújo anunciou hoje a sua candidatura à Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras (ABL), aberta com a morte, em 22 de setembro, do jornalista e escritor Zuenir Ventura. A Academia realizou a Sessão da Saudade no dia 24 e, a partir de então, abriu o prazo estatutário de 15 dias para apresentação das candidaturas. Zuenir era o sétimo ocupante da Cadeira 32, para a qual fora eleito em 2014, sucedendo Ariano Suassuna.
O anúncio ocorre em momento de intensa produção e recepção crítica da obra de Taurino. Quase cinco décadas de atividade intelectual, literária, jurídica, artística e cultural acabam de ser examinadas por Mário Nelson Carvalho em Taurino Araújo — O Mercado das Sete Portas: Sete caminhos de uma eloquente vocação genuinamente brasileira, estudo biográfico e crítico de 46 páginas.
De Ubatã para uma multitrajetória
A retrospectiva começa muito antes dos livros recentes. Nascido em Jequié, em 25 de dezembro de 1968, Taurino Araújo teve parte decisiva de sua formação em Ubatã, município que, numa coincidência particularmente significativa para este anúncio, completa hoje 73 anos.
Ubatã não é apenas cenário de juventude. Taurino formou-se em Magistério pelo Colégio Estadual de Ubatã, em 1985, foi professor de Língua Portuguesa e, em 1989, tornou-se secretário municipal de Administração. A biografia institucional mantida pela Assembleia Legislativa da Bahia registra também sua passagem pela presidência do Grupo de Arte Canoatan e do Centro Cívico Duque de Caxias.
Vista retrospectivamente, a experiência ubatense já reunia elementos que voltariam, sob outras formas, ao longo da trajetória: educação, palavra, cultura, arte, administração pública e Direito. Décadas depois, Mário Nelson Carvalho encontraria justamente nessa recorrência entre campos distintos uma das chaves para interpretar o percurso de Taurino.
Da administração pública em Ubatã à poesia de A caturna, mudaram as linguagens; permaneceu a disposição de atravessar fronteiras entre campos diferentes.
Direito, pensamento e palavra
Bacharel em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz e doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidad del Museo Social Argentino, Taurino Araújo desenvolveu paralelamente a advocacia, o magistério e a produção intelectual. Sua biografia institucional registra atuação docente e jurídica, além de estudos em hermenêutica, teoria do Direito, filosofia, história e antropologia jurídica.
Um dos pontos de convergência desse percurso é Hermenêutica da Desigualdade, publicada pela Del Rey em 2019. A obra procura colocar em relação Direito e Ciências Sociais e tornou-se referência recorrente na produção posterior do autor. A Assembleia Legislativa registra ainda que, em 2020, o livro já integrava acervos internacionais, entre eles Stanford University Libraries, a Bibliothèque Interuniversitaire Sorbonne, o Instituto Ibero-Americano de Berlim e a biblioteca das Nações Unidas em Genebra.
Da construção cultural à Academia de Letras da Bahia
Outra dimensão ganhou forma particularmente visível em 2025 com Signos em Transe: uma fortuna crítica sobre a semiótica de Lícia Soares de Souza. A obra, publicada pela ZL Books, teve curadoria, organização e apresentação de Taurino Araújo e reuniu 62 autores de sete países, com produção multilíngue e participação de pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
O lançamento ocorreu em 23 de abril de 2025 na Academia de Letras da Bahia, em Salvador, em programação presidida pelo imortal Aleilton Fonseca, que aproximou literatura, semiótica, diversidade cultural e pensamento interdisciplinar. O projeto contou com apoio acadêmico e institucional da UNEB e do CNPq.
O interesse de Signos em Transe para a retrospectiva ultrapassa, portanto, a publicação de mais um livro. A coletânea materializa uma característica que Mário Nelson Carvalho transformaria depois em categoria interpretativa: reunir autores, países, idiomas, disciplinas e tradições sem apagar as diferenças entre eles.
A poesia e a recepção crítica
Em 2026, a poesia passou a ocupar posição especialmente visível nessa recepção. Nelson Cerqueira, doutor em Literatura Comparada pela Indiana University e membro da Academia de Letras da Bahia, onde ocupa Cadeira 4, publicou em agosto A caturna, de Taurino Araújo: um tratado crítico, estudo de 48 páginas dedicado a um único poema de 96 versos.
Cerqueira acompanha a transformação de uma palavra rara — caturna — em sistema poético: língua, calçado, corpo, passo, pegada, território, memória e permanência. Sua interpretação aproxima criação poética e pensamento e examina o poema como uma espécie de autobiografia simbólica, na qual trajetória individual, Língua Portuguesa e experiência histórica se encontram.
Pouco depois, o estudo recebeu versão inglesa e passou a circular internacionalmente no SSRN/Elsevier. Na apresentação dessa edição, a leitura de Cerqueira chega à conclusão de que “poeta” e “pensador”, tomados isoladamente, já não seriam suficientes para dimensionar a produção que examina.
O Mercado das Sete Portas
É nesse contexto que Mário Nelson Carvalho publica O Mercado das Sete Portas. Economista, afroempreendedor, consultor empresarial, conselheiro fundador da Universidade Zumbi dos Palmares/AfroBras, em São Paulo, e ativista do Movimento Negro, Carvalho utiliza como metáfora o tradicional mercado soteropolitano para distribuir a trajetória de Taurino em sete dimensões: poesia, pensamento, Direito e democracia, crítica, construção cultural, arte e convergência.
A sétima porta ocupa posição decisiva porque não acrescenta uma nova atividade às seis anteriores. É o ponto no qual elas se encontram. Direito continua sendo Direito; poesia permanece poesia; crítica, construção cultural e arte conservam suas particularidades. O que o ensaio procura identificar é o procedimento que permite que esses campos se comuniquem.
Surge daí a ideia de “multitrajetória”. Em vez de sete biografias paralelas, Carvalho propõe sete manifestações de uma mesma vocação. Por isso, O Mercado das Sete Portas acaba assumindo também a forma de memorial crítico de quase cinco décadas de trajetória.
Da Bahia para a Academia Brasileira de Letras
É essa multitrajetória que Taurino Araújo apresenta agora ao anunciar sua candidatura à Academia Brasileira de Letras.
A Cadeira 32 tem como patrono Manuel de Araújo Porto-Alegre. Zuenir Ventura foi seu sétimo ocupante, eleito em 30 de outubro de 2014 na sucessão de Ariano Suassuna e empossado em 6 de março de 2015. Com sua morte e a realização da Sessão da Saudade em 24 de setembro de 2026, abriu-se o período de 15 dias para apresentação de candidaturas.
E a coincidência de datas devolve a narrativa ao começo. No mesmo 26 de setembro em que Ubatã celebra 73 anos, uma trajetória que passou pelas salas de aula, pela cultura e pela administração pública daquele município anuncia um novo capítulo, agora voltado para a Academia Brasileira de Letras.
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