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Estudo sobre poesia de Taurino Araújo amplia debate sobre candidatura à ABL

Ensaio de Edson Reis Santana, já publicado no Zenodo, relaciona o poemaÉ tarde, mas não é tarde à tradição condoreira de Castro Alves e avança da análise literária para a organização cultural e a contribuição extraordinária de Taurino Araújo à Academia Brasileira de Letras

27/10/2026 às 07h49
Por: Galego Noticias
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Ensaio de Edson Reis Santana, já publicado no Zenodo, relaciona o poemaÉ tarde, mas não é tarde à tradição condoreira de Castro Alves e avança da análise literária para a organização cultural e a contribuição extraordinária de Taurino Araújo à Academia Br
Ensaio de Edson Reis Santana, já publicado no Zenodo, relaciona o poemaÉ tarde, mas não é tarde à tradição condoreira de Castro Alves e avança da análise literária para a organização cultural e a contribuição extraordinária de Taurino Araújo à Academia Br

 

 

 

Taurino Araújo entra na fase final da disputa pela Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras acompanhado por uma produção crítica que ultrapassa a circunstância eleitoral e procura examinar sua obra, sua trajetória intelectual e as possíveis formas de contribuição concreta à instituição.

A candidatura de Taurino Araújo à Cadeira 32 passa, assim, a ser apresentada pelo estudo não apenas em termos de obra acumulada, mas de capacidade de articulação cultural. Uma atividade que, segundo o próprio percurso reconstruído pelo ensaio, começa ainda na infância, no Grupo de Arte Canoatan, em Ubatã, e atravessa quase cinco décadas de literatura, Direito, pensamento, crítica, arte, docência, gestão e organização cultural.

Já está publicado no Zenodo o estudo de Edson Reis Santana, Condoreirismo e eloquência pública em É tarde, mas não é tarde, de Taurino Araújo: da poética da transmissão à organização cultural na Academia Brasileira de Letras. A publicação possui também edição em inglês, com DOI próprio.

O trabalho parte do poema É tarde, mas não é tarde — Tributo a Castro Alves para investigar como Taurino recebe e transforma elementos historicamente associados à poesia condoreira — altura, amplitude humanitária, liberdade, eloquência pública e vocação declamatória — sem simplesmente reproduzir a linguagem do século XIX. Edson Reis Santana identifica quatro operações centrais na obra: condoreirismo reconfigurado, eloquência condensada, performatividade escritural e declamação plena.

A leitura parte de uma distinção importante.

O estudo não procura classificar Taurino Araújo como “poeta condoreiro” em sentido histórico.

A questão é outra: compreender como a potência da palavra pública associada a Castro Alves pode ser recebida por um poeta contemporâneo, modificada e devolvida à circulação sob nova forma. Nesse movimento, a verticalidade do condor deixa de ser apenas voo e transforma-se em percurso.

No próprio poema, a imagem “Fiz do verso / escada” conduz Santana à ideia de que a altura permanece, mas sua física muda: para subir semanticamente, o leitor desce graficamente pelos versos curtos da página.

Outro conceito desenvolvido pelo ensaio é o da eloquência condensada. Em vez dos grandes períodos, acúmulos e exclamações característicos da tradição oratória oitocentista, Taurino Araújo trabalha pela concentração.

 O exemplo escolhido por Santana é o dístico “E o Atlântico / abaixou os olhos”. Para o crítico, poucas palavras passam a sustentar um oceano, uma história transatlântica e uma vergonha; o mar deixa de funcionar como simples geografia e converte-se em testemunha moral.

A eloquência, nesse caso, não desaparece: muda de escala e faz do próprio silêncio ao redor do verso parte do efeito poético.

A análise ganha outra dimensão ao reconstruir a história da expressão que dá título ao poema. Documentos e testemunhos examinados pelo estudo indicam que “É tarde, mas não é tarde” já existia como palavra pública em 14 de março de 1992, numa intervenção de Taurino Araújo na Academia de Letras de Ilhéus.

Em 2019, essa voz já retorna à circulação pública e acaba transformada em arquitetura poética. Santana descreve o percurso como uma cadeia: voz → acontecimento → memória → documento → poema → página → nova voz.

Daí surge o conceito de dupla temporalidade. O Taurino de 2019 não recebe apenas Castro Alves, vindo do século XIX; recebe também a própria voz lançada ao espaço público 27 anos antes.

O poeta maduro encontra simultaneamente a tradição e sua própria juventude. Para Santana, receber não significa conservar passivamente: significa transformar e fazer prosseguir.

 

 

Essa concepção de transmissão encontra um dos momentos mais fortes na oposição entre ferro, bronze e boca. O ferro imobiliza o corpo no cativeiro; o bronze pode imobilizar a memória no monumento; a boca, ao contrário, devolve movimento à palavra.

O ensaio chama esse confronto de “monumento versus movimento”. A posteridade não estaria apenas na estátua ou no mármore, mas na possibilidade de uma palavra entrar em outra respiração e ganhar novamente corpo, voz e situação.

A imagem da “boca de quem ainda não nasceu”, examinada por Santana, transforma-se assim numa teoria da transmissão poética. O verso pode permanecer justamente porque não depende da permanência física de quem o pronunciou.

 A biblioteca conserva; a boca atualiza. É nesse ponto que o estudo dialoga também com uma formulação de Nelson Cerqueira sobre a poesia de Taurino Araújo: “o sujeito pode cessar; o verbo prossegue”.

Outro eixo importante é aquilo que o autor denomina “liberdade depois da liberdade”. Ao perguntar “quem liberta / a palavra / liberdade?”, o poema desloca o problema do plano exclusivamente histórico para o próprio destino da linguagem. Uma palavra libertadora também corre o risco de ser monumentalizada, escolarizada, transformada em fórmula ou lugar-comum. O desafio contemporâneo passa a ser fazê-la agir novamente.

O ensaio, porém, não se encerra na análise formal do poema. É justamente aí que a publicação ganha interesse para a atual candidatura à ABL. Santana introduz uma leitura socioliterária da chamada multitrajetória de Taurino Araújo e propõe distinguir três ideias: multiplicidade, coerência e convergência.

Ter diferentes campos de atuação não basta; cada trajetória precisa possuir autonomia e densidade próprias. A convergência somente acontece quando essas atividades começam a produzir efeitos umas sobre as outras.

O crítico denomina o ponto máximo desse fenômeno de “suprassumo de convergência”.

Nesse enquadramento, o artigo identifica em Taurino uma atuação distribuída por literatura, Direito, pensamento, crítica, docência, artes visuais, gestão e organização cultural. A imprensa e a crítica, segundo o levantamento utilizado pelo estudo, chegaram a distinguir treze frentes de atuação: poeta, jurista, advogado, pensador, jornalista, crítico literário, artista visual, professor, ensaísta, organizador cultural, curador, gestor e mentor. O interesse analítico não está no número, mas na possibilidade de algumas dessas funções atuarem como pontes entre as demais.

É nessa passagem que a organização cultural deixa de ser um apêndice curricular e ganha centralidade. O estudo recorda que, ainda menino em Ubatã, Taurino Araújo participou e presidiu o Grupo de Arte Canoatan, experiência em que criação artística, cerimonial, organização cultural e vida comunitária já apareciam conjugadas.

Décadas depois, a mesma lógica reaparece em projetos que envolvem reunião de autores, línguas, crítica, curadoria e circulação cultural.

Santana cita, entre outros exemplos, a atuação de Taurino na apresentação, organização e curadoria de Signos em Transe, coletânea crítica que reuniu dezenas de autores de diferentes países e idiomas. O exemplo interessa ao ensaio porque desloca a noção de autoria: não apenas produzir a própria obra, mas criar condições para que outras vozes se encontrem, circulem e sejam lidas.

A partir daí, a análise chega diretamente à Academia Brasileira de Letras. O artigo distingue cuidadosamente organização cultural de direção institucional: “o presidente dirige; o organizador cultural articula”.

A contribuição institucional examinada pelo estudo estaria em aproximar pessoas, obras, linguagens, gerações e regiões, transformando diversidade dispersa em projetos compartilhados.

É também nesse contexto que surge a ideia de Taurino Araújo como possível “curador da antiguidade, da tradição e da memória”. Antiguidade, no sentido da profundidade histórica e do acervo recebido; tradição, como processo de transmissão, seleção e reelaboração desse legado; memória, como capacidade institucional de manter o passado operante no presente. Para o estudo, uma Academia não permanece viva apenas porque conserva: permanece porque interpreta, retransmite e atualiza aquilo que recebeu.

O caso do filólogo Ricardo Cavaliere, eleito para a Cadeira 8 em 2023, é utilizado como termo de comparação metodológica. Santana distingue a consagração literária, exemplificada por Manuel Bandeira, da especialização institucional, representada por Cavaliere, cuja trajetória em filologia e estudos da língua portuguesa torna imediatamente reconhecível sua contribuição técnica extraordinária à Academia.

A importância daquele ingresso, aliás, foi explicitada pelo próprio Evanildo Bechara. Ao comentar a eleição de Ricardo Cavaliere, o imortal qualificou sua chegada como reforço para a Casa e afirmou que o novo acadêmico viera “dar novas orientações ao nosso trabalho”.

A observação desloca o foco do prestígio individual para aquilo que a experiência de cada acadêmico pode efetivamente acrescentar ao trabalho coletivo da ABL.

O ensaio propõe uma terceira forma de legibilidade: a convergência, pela qual trajetórias diferentes ganham força institucional justamente porque podem operar em conjunto.

No caso de Taurino, essa hipótese é levada ao terreno concreto: organização cultural, curadoria, gestão e mentoria aparecem como mecanismos capazes de transformar criação e pensamento em projetos, encontros, circulação, formação de públicos, preservação de acervos e continuidade institucional.

É esse patrimônio de quase cinco décadas — iniciado ainda menino no Grupo de Arte Canoatan, em Ubatã — que a candidatura de Taurino Araújo propõe colocar a serviço da Academia Brasileira de Letras.

No fundo, a tese que aproxima o poema da instituição é a mesma: receber não basta; é preciso transformar para transmitir.

Às vésperas da eleição para a Cadeira 32, marcada para 12 de novembro, é essa ideia de permanência em movimento — fundada na antiguidade, na tradição e na memória — que o estudo de Edson Reis Santana introduz no debate sobre Taurino Araújo e a Academia Brasileira de Letras.

 

 <p><a href="https://galegonoticias.com.br/envios/2026/10/27/660540de1c3e9c3de0642648fd22e3cccf213fcd.pdf">Clique aqui para ver o documento "Condoreirismo e eloquência pública em É tarde mas não é tarde de Taurino Araújo.pdf"</a></p>

 

 

 <p><a href="https://galegonoticias.com.br/envios/2026/10/27/ec65d96b91ae1d29b7f6c7454e84d6d0b22a514b.pdf">Clique aqui para ver o documento "Condoreirism and public eloquence in poem É tarde, mas não é tarde by Taurino Araújo.pdf"</a></p>

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